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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Para provar que não é gay, padre pede para que diocese tire a medida de seu ânus


O padre espanhol Andreas Garcia Torres (na foto, à direita), 46, disse que, para convencer seus superiores da diocese de que não é gay, pediu a eles que medissem o seu ânus “para ver se está dilatado”.
Torres foi afastado de sua paróquia, na cidade de Fuenlabrada, perto de Madri, sob a suspeita de ser homossexual por causa de uma foto que saiu na internet na qual ele e Yannick Delgado (foto), um seminarista de 28 anos de Cuba, estão abraçados sem camisa. A foto foi tirada no ano passado no Santuário de Fátima, Portugal.
Torres afirmou ser vítima de calúnia. “Tenho uma amizade normal com este menino. Este foi o único dia que eu estive com ele. Tiramos uma foto de nós mesmos, sem camisas, e foi isso que deu origem à confusão.”
A diocese de Getafe exigiu que o padre fizesse exames para verificar se tem o vírus HIV e o encaminhou a um tratamento psiquiátrico. “O psiquiatra me perguntou de forma humilhante se os meus pais me tinham estuprado quando era criança ou se eu os tinha visto a ter relações sexuais”, disse.
O padre afirmou confiar no diagnóstico da medição do ânus porque, segundo ele, trata-se de uma técnica cuja eficácia já foi provada em terapia de pessoas que deixaram de ser gay.
Até que estourasse o escândalo, a comunidade gay acusava Torres de ser homofóbico porque ele tem textos na internet segundo os quais os homossexuais são “intrinsecamente maus e perversos”.
Delgado disse não saber quem colocou a foto na internet. “Ela estava no meu computador, e eu nem sequer a postei no Facebook”, disse. Ele considera o padre como “um pai adotivo”.
Os fiéis fizeram um abaixo assinado para que Torres volte à paróquia. O padre, que resistiu em entregar a chave da igreja, disse que se queixou diretamente com o Vaticano.
A diocese comunicou que Torres foi afastado por “problemas pastorais”.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

ATÉ QUANDO?


Pecado, doença, desvio de conduta. São inúmeras as visões negativas que surgiram a respeito da homossexualidade ao longo da história e que – uma a uma – foram derrubadas pelo avanço do conhecimento. Homossexuais já foram queimados em fogueiras, levados para campos de concentração e internados em clínicas de “correção”. Hoje, quando se poderia imaginar que isso fosse coisa do passado, eles continuam a ser espancados e mortos simplesmente pelo fato de serem... homossexuais. Em 2010, pelo menos 260 gays, travestis e lésbicas foram assassinados no Brasil, vítimas da homofobia. Os números são do Grupo Gay da Bahia, uma das pioneiras e mais ativas associações na defesa dos direitos dos homossexuais no país. Não há dados oficiais sobre o assunto, mas o estudo da ONG já dá uma amostra da intolerância que ainda persiste por aqui. Os recentes ataques na avenida Paulista, em festas de estudantes da USP e em feiras agropecuárias que ganharam as manchetes dos jornais em todo o país são mais uma prova disso.
Após a decisão histórica do Superior Tribunal Federal em maio deste ano, quando autorizou a união estável entre pessoas do mesmo sexo, a principal bandeira do movimento LGBT agora é aprovar o projeto de lei que torna crime a homofobia no Brasil. “O PLC 122 equipara a homofobia ao racismo e à discriminação religiosa”, explica o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ). Em tramitação no senado, o projeto foi aprovado pela câmara dos deputados em 2006 e sofre forte oposição da bancada evangélica, que argumenta que ele fere a liberdade religiosa e de expressão. De acordo com seus opositores, a lei, se aprovada, impediria padres católicos e pastores evangélicos, por exemplo, de pregar contra a homossexualidade. O deputado Jean Wyllys rebate: “Da mesma maneira que um padre não pode fazer um discurso antissemita ou racista na missa, se esse projeto for aprovado, ele terá que tomar cuidado para não disseminar o ódio aos homossexuais. Não dá para levar ao pé da letra o que diz a Bíblia. Tem que contextualizar. Assim como a ciência já provou que a Terra não é o centro do Universo, ela já demonstrou que a homossexualidade não é uma doença ou um tipo de perversão. O conhecimento avança, não dá para negar essas coisas”.
Na opinião do antropólogo Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia, as atuais políticas LGBT governamentais são ineficazes para reduzir a violência contra os homossexuais. “O número de assassinatos aumenta a cada ano. É assustador. Como não existem dados oficiais sobre o assunto, nosso levantamento é feito com base em notícias que saem em jornais, TVs, internet e mensagens enviadas pelos grupos gays de todo o Brasil. Mas certamente é subnotificado, há muito mais casos não relatados”, afirma. Para Toni Reis, presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), “obviamente a aprovação de uma lei como essa não vai resolver todos os problemas, mas certamente vai ajudar a inibir a violência de pessoas homofóbicas”.
"Assim como a ciência já provou que a Terra não é o centro do Universo, ela já demonstrou que a homossexualidade não é uma doença ou um tipo de perversão", Jean Wyllys
Um levantamento do Centro de Combate à Homofobia, órgão da prefeitura de São Paulo que oferece um serviço de denúncias, aponta que a maior parte das pessoas que cometem atos de homofobia tem algum tipo de vínculo com a vítima. “São familiares, vizinhos ou colegas de trabalho. Isso mostra a questão da impunidade. Mesmo sabendo que vai ser reconhecido, o agressor comete a violência porque sabe que não será punido”, afirma Franco Reinaudo, que comanda a Coordenaria de Assuntos de Diversidade Sexual (Cads), da prefeitura. A região central da cidade concentra 50% dos casos de agressão física. É onde estão localizadas a avenida Paulista e a rua Augusta, chamada pela Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) de “Faixa de Gaza”, por concentrar boa parte dos casos de crimes de ódio, incluindo aqueles voltados contra os gays.
Na avaliação dos especialistas, esses ataques em áreas centrais provavelmente são uma reação à maior visibilidade conquistada pelos homossexuais. Esse público representa 10% da população do país, segundo o IBGE. Nas últimas décadas, uma série de avanços permitiu que cada vez mais gays e lésbicas saíssem do armário e exigissem seus direitos. Houve o crescimento no número de grupos ativistas (em 1995 eram 95 grupos LGBT organizados; hoje são mais de 300), a multiplicação das paradas de orgulho gay (a primeira foi em 1997; hoje são mais de 200 em todo o país) e a formação de um forte mercado voltado para esse público. A discussão sobre a homofobia conquistou espaço até no horário nobre da TV Globo: a novela das nove, o grande formador de opinião das massas brasileiras.
“No momento em que os homossexuais, com a Parada Gay e as demonstrações públicas de afeto, tomam simbolicamente a avenida Paulista, um espaço antes restrito aos heterossexuais, há uma reação de grupos contrários a eles. A Marcha de Jesus, o Dia do Orgulho Hétero são provas disso”, afirma Klecius Borges, terapeuta especializado em atender gays, lésbicas e bissexuais. O problema, diz o psicólogo, é quando a discussão sai do campo das ideias e o homofóbico parte para a violência. “Hoje felizmente os homossexuais denunciam mais as agressões. Mas, até pouco tempo atrás, se o sujeito fosse prestar uma queixa na delegacia ele seria motivo de chacota por parte do policial e ainda corria o risco de apanhar.”
Segundo Klecius, numa sociedade ideal não seria necessário criar leis contra a violência doméstica, o racismo ou a homofobia, mas no atual estágio de desenvolvimento do Brasil ainda é preciso que elas existam. “Por que existe a Lei Maria da Penha? Porque a sociedade como um todo não é capaz neste momento de fornecer instrumentos capazes de proteger uma mulher que é sistematicamente abusada pelo marido. A mesma coisa acontece com os gays. A situação atual é tão perigosa que nesse estágio é preciso uma lei que criminalize os atos de homofobia. É necessário algo que iniba esse tipo de violência”, conclui o psicólogo.

Assassinatos, espancamentos e suicídios são parte da rotina da comunidade LGBT jamaicana


O “one love, one heart” cantado por Bob Marley não inclui seus conterrâneos homossexuais. “Let's get together and feel all right” então, nem pensar. A ilha já foi classificada pela revista Time, em reportagem de 2006, como “o lugar mais homofóbico do mundo”. Não é bem assim, em países como Uganda ou Arábia Saudita a situação é bem pior, mas a nação caribenha, que no senso comum é um lugar relax, tem uma realidade tenebrosa (para usar um adjetivo leve) em relação aos direitos básicos dos homossexuais. Trip esteve em Kingston e conversou com ativistas e homossexuais não militantes, e deixa que eles falem:
“Em 2009 um amigo gravou uma festa nossa em Ocho Rios [litoral norte da ilha], onde eu morava. Era uma festa normal, no vídeo [com três horas de duração] não tem nada de mais, o pessoal tá bebendo, dançando, se divertindo. Aparece só algum beijinho, e um ou outro homem vestido de mulher. Meses depois, em uma batida policial na casa desse amigo, a polícia apreendeu o VHS e vazou.” A gravação virou hit instantâneo nas barracas de camelôs do país todo, sob o título “gay tape”. “Seis amigos entre 16 e 25 anos foram assassinados após aparecerem no vídeo, e mais de dez tiveram que deixar a cidade para não serem mortos também.” O relato é de um dos protagonistas da fita, Dwight, um dos que deixaram a cidade – o rapaz de 21 anos escapou de algumas tentativas de assassinato e carrega algumas cicatrizes profundas de facadas. Há mais de um ano Dwight vive nas ruas da capital e faz parte de um grupo de “michês homeless” que trabalha na região de New Kingston, bairro central da capital onde ficam os melhores hotéis e o centro financeiro do país.
“Em maio agora 20 policiais entraram em um clube gay em Montego Bay [segunda maior cidade jamaicana] e espancaram todo mundo. Normalmente eles só desligam o som e acabam com a festa [clubes gays são proibidos, todos são clandestinos]. Mas dessa vez mais de dez pessoas foram parar no hospital por conta das agressões.” Quem conta é Daniel Lewis, porta-voz da J-Flag, maior entidade de defesa dos direitos da população LGBT da ilha. O cartão de Daniel não traz o endereço da entidade, que ele escreve à mão no verso. “É para evitar atentados. Ah, e quando for lá não dê o endereço exato pro taxista, e desça do carro um quarteirão antes ou depois.” A precaução se justifica. O último porta-voz da entidade foi encontrado morto em casa no começo deste ano, com o corpo em estado de decomposição. E outro membro do grupo já havia sido morto esfaqueado há cinco anos. Para evitar o mesmo destino, Daniel dá entrevistas para a imprensa local apenas por telefone e nunca se deixa fotografar ou filmar. “A situação dos gays na Jamaica é assim por vários motivos, mas um dos principais é a religião. Somos um país cristão, e a influência da Igreja é muito forte na política e na sociedade.” (Diferentemente do que alguns imaginam, o rastafarianismo é uma religião minoritária. E mesmo assim também é, digamos, pouco simpática aos homossexuais.)
Sexo gay é contra a lei 
A homossexualidade não é proibida na Jamaica. O que a lei proíbe é a sodomia – buggery –, ou seja, o ato sexual com penetração entre dois homens. Hoje há poucos cidadãos encarcerados pelo “crime”, que é de difícil confirmação e envolve até exames médicos. Mas num passado recente já foi bem pior. “Em 1996 eu estava com quatro amigos dentro do carro, durante o dia, na orla, conversando. A polícia chegou e levou todo mundo pra delegacia. Dali fomos encaminhados direto para a prisão”, conta o blogueiro Michael, que trabalha em uma empresa de seguros e ficou um mês preso por conta desse episódio. “Hoje em dia alguém ser preso assim não é mais tão comum, mas é feita uma confusão muito grande entre homossexualidade e pedofilia. E tem muito gay preso acusado de pedofilia, mas que na verdade não cometeu crime algum, e sim teve uma relação homossexual adulta e consentida. A sociedade tem medo que nós transformemos seu pobres garotos em 'battymans' [gíria local que significa algo como ´bicha´]”, conclui, irônico.
O próprio primeiro-ministro e os mais populares artistas da ilha estimulam a discriminação abertamente
O lesbianismo não é citado na legislação da ilha caribenha, mas isso não alivia muito. “Há muitos 'estupros correcionais', e a maioria de minhas amigas sofre de depressão forte, várias já tentaram se matar”, diz Stacy, dona de um um clube clandestino.
Lésbicas e gays disfarçam sua condição no dia a dia, já que todos concordam que o pior não é a lei, e sim a intolerância da sociedade. Relatos de agressão e assassinatos são assustadoramente frequentes. Quando um gay é “descoberto” em uma comunidade, especialmente as mais populares, a medida mais comum é a expulsão imediata. Uma das duas únicas travestis da ilha – nas contas de Daniel, da J-Flag –, Moyette Morgan resume a posição da maioria da comunidade LGBT: “Estou extremamente cansada. Não consigo dormir em paz uma noite, já tentei me matar cinco vezes... se pudesse, eu dormiria por duas semanas seguidas, não aguento mais”. Moyette, 34 anos, só não sai do país por falta de dinheiro. Gostaria de se mudar para um país “trans friendly” – e cita como exemplos Tailândia, Índia e Brasil.
Primeiro-ministro homofóbico
Nenhum dos entrevistados se mostrou muito otimista em relação ao futuro. A impressão é que a situação está tão enraizada por lá que dificilmente haverá uma mudança num futuro próximo. Boa parte dos artistas do mais popular dos ritmos locais, o dancehall, tem músicas que pregam o espancamento e até a morte de gays – é o caso do ganhador do Grammy Beenie Man. O próprio primeiro-ministro jamaicano, Bruce Golding, afirmou irritado em 2008, em entrevista à BBC, que “jamais chamaria um gay para seu gabinete” – procurada, a cônsul da Jamaica em São Paulo não atendeu aos pedidos de entrevista.
E há esperança? “Não sou muito otimista. Se eu tivesse uma varinha mágica, quem sabe...”, diz, entre melancólico e irônico, o porta-voz da J-Flag. Para Dwight, o michê sem-teto do vídeo que causou seis mortes, nem foi preciso perguntar. Ele passou boa parte da entrevista pedindo insistentemente ajuda a este repórter para conseguir asilo no Brasil.