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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Cartunista que se veste de mulher quer usar o banheiro feminino


A questão é delicada e tem causado uma polêmica danada. Em São Paulo, um cartunista que se sente e se veste como mulher quer ter o direito de usar o banheiro feminino. Casos iguais começam a se repetir em todo o Brasil.
Um caso parecido já havia acontecido noRio de Janeiro. Agora foi o São Paulo. Uma mulher se sentiu constrangida ao ver o cartunista Laerte Coutinho, que se assumiu como transexual, no banheiro feminino de um restaurante. Ela reclamou com o dono do lugar, que chamou a atenção do cartunista. A partir daí começou a discussão.
O autor de quadrinhos levou 57 anos para sair do armário e agora quer entrar no banheiro. “No banheiro feminino”, comentou o cartunista Laerte Coutinho.
Há mais de um ano, desde que ele assumiu publicamente a vontade de se vestir de mulher, os olhos se arregalam, mas nunca ninguém tinha reclamado. A polêmica surgiu na semana passada, depois que o cartunista usou o banheiro feminino de um restaurante e foi, digamos, flagrado por uma cliente. “Ela alegou que eu sou homem e preciso usar o banheiro de homem”, comentou o cartunista.
O gerente do restaurante fez o mesmo pedido. Só que Laerte usava maquiagem, roupas femininas e não se sentia à vontade no banheiro dos homens. “Eu sou uma pessoa transgênera e quero usar o banheiro feminino”, defende Laerte Coutinho.
O cartunista já foi casado, tem dois filhos e uma namorada. Sim, namorada. Ele se define ao mesmo tempo como travesti e bissexual. “Essas mulheres não podem se sentir constrangidas pelo fato de você ter atração por mulher também?”, pergunta o repórter. “Não importa. Como é que elas se sentiriam com uma lésbica dentro do banheiro?”, rebate o cartunista.
Laerte Coutinho compara a luta dos travestis de hoje com a luta histórica dos negros americanos por direitos civis. “Nos Estados Unidos, na década de 1960, teve de vir a força federal. Teve de a guarda nacional garantir o direito de crianças negras entrar na escola”, citou o cartunista.
Ainda que o assunto seja incômodo para muita gente, as questões exigidas pelo cartunista Laerte são cada vez mais levadas a sério no Brasil. Já existem leis estaduais prevendo até o fechamento de estabelecimentos comerciais que promovam algum tipo de discriminação.
Na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), discute-se – com ânimos exaltados, obviamente – um estatuto que, se aprovado na OAB e depois no Congresso em Brasília, ampliaria os direitos de travestis e transexuais país. Eles poderiam, por exemplo, usar o banheiro feminino em qualquer lugar do país. Na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), um caso parecido levou a direção a liberar o banheiro feminino para os transexuais.
Depois do incidente, o cartunista procurou a Secretaria de Justiça de São Paulo e foi orientado a exigir o que considera serem os direitos dele. Não vai entrar na Justiça, porque não considera que houve dano moral.
“Não é bandeira ou causa. É a minha vida, é a minha vida e eu vou lutar por ela. Vou fazer valer meus direitos”, afirmou Laerte Coutinho.
Em uma charge de Laerte, o personagem Hugo tem um alterego chamado Muriel, que é travesti. Hugo faz de tudo para esconder Muriel no armário. Impossível! O lado masculino do artista é que foi parcialmente trancado. “Entrar no banheiro é sopa perto de sair do armário”, brinca Laerte.
Laerte não pensa em mudança de sexo nem de nome. “Você tem um nome feminino?”, pergunta o repórter. “Eu tenho. É Sonia, mas é mais para o circuito dos clubes e fóruns que eu frequento. Eu uso Laerte mesmo”, comenta.
O cartunista pretende brigar pelo direito de ser Hugo ou Muriel no banheiro que bem entender.
Segundo a presidente da comissão de combate à homofobia da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Adriana Galvão, a lei não fala em banheiros para transexuais, mas diz claramente que o direito de gênero da pessoa deve ser respeitado.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Do que se repete, uma breve uma lista:

- cama e suas variantes
- tecidos, toalhas, panos que cobrem só o pênis
- banheira e suas variantes
- quadro pescoço-cintura
- bundas
- cuecas

domingo, 27 de novembro de 2011

Nal Goldin : exposição censurada no Oi futuro.


Em carta aberta e divulgada no Facebook, a curadoria Lígia Canongia lamenta terem sido” jogados fora” dois anos de trabalho para a montagem de uma exposição com obras da fotógrafa norte-americana Nan Goldin. O motivo? Censura. O Supergiba buscou informações sobre o ocorrido na página oficial da instituição, dando ao Oi Futuro o direito de resposta, mas teve seu post retirado do mural. O mesmo aconteceu com outros usuários.
A apuração dessa história continua amanhã. Confira a íntegra da carta abaixo:
“Em reunião ontem, no Oi Futuro, fui comunicada pelo curador e pela direção do instituto que a exposição de Nan Goldin estava suspensa.
Em ato arbitrário, prepotente e desrespeitoso com a artista, os curadores, e sobretudo, com a obra de arte, a mostra foi CENSURADA.
A artista chegaria ao Rio dentro de 20 dias, e a exposição se inauguraria em 09 de janeiro, ou seja, faltando praticamente 1 mês.
A direção e a curadoria dessa casa simplesmente não sabiam quem era Nan Goldin e o conteudo de suas imagens, tomando conhecimento delas apenas no final de outubro, embora tenham selecionado a exposição em edital de um ano atras.
Um trabalho de quase dois anos foi jogado fora, sumariamente.
Atos como este so se inscreveram na historia durante o nazismo, o fascismo e as ditaduras.
A instituição teve apenas o desplante de me pedir que levasse a exposição para outro lugar.
Se vocês puderem e quiserem se manifestar a esse respeito, eu agradeceria, pois vou reencaminhar ao Oi Futuro a ressonância dessa arbitrariedade no meio artistico.
Um grande abraço,
Ligia Canongia”

Nan Goldin realizou sua primeira individual em Boston em 1973, apresentando um conjunto de imagens das comunidades gays e transexuais da cidade, introduzida no meio pelo amigo David Armstrong. Goldin graduou-se na School of the Museum of Fine Arts, Boston/Tufts University em 1977/1978, onde trabalhou na maioria com impressões através do processo de Cibachrome. Goldin, residente em Nova York, realizada desde o final dos anos 70 um trabalho focado na documentação da subcultura gay nos Estados Unidos.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Achilles and Patrocklus, 2001


Pintura do artista Richard Taddei.

Kit Anti-homofobia


Radicado em Nova York, o artista plástico brasileiro Fernando Carpaneda vendeu para The Leslie Lohman Gay Art Foundation um conjunto de esculturas que ficará exposto ao lado de nomes como Andy Warhol e Keith Haring. Em uma delas, intitulada Bolsonaro’s Sex Party, uma escultura do deputado federal Jair Bolsonaro, famoso por suas declarações homofóbicas, participa ativa – e, diga-se de passagem, também passivamente – de uma suruba homossexual. Por email, o artista explicou um pouco sua arte:
Os seus trabalhos colocam como protagonistas os excluídos, com um toque bastante underground. Por que isso? Qual é o alvo da crítica?
Tento intervir na realidade social que me circunda, deslocando certas noções de certo ou errado nos meus trabalhos. Fiz uma escultura que se chama "O mendigo morto". É um trabalho que fala sobre os casos dos mendigos assassinados em São Paulo. É uma obra que mostra o corpo de um mendigo espancado e mutilado. As pessoas se assustam quando olham a escultura, mas é a nossa realidade que está ali. Isso acontece cotidianamente no Brasil e ninguém faz nada. Homossexuais e prostitutas são assassinados todos os dias, os processos de punição não avançam e nem a imprensa se interessa pela morte de pessoas que estão à margem. Como meu trabalho sempre foi ligado a personagens de rua, às vezes denuncio certos abusos que acontecem com as pessoas. O governo não toma providência alguma. Meu objetivo como artista é mostrar justamente esses abusos contra o ser humano. 

Como você mesmo coloca, mais de 250 pessoas foram assassinadas no Brasil por conta da homofobia. Como você acha que a arte pode ajudar a reduzir esse quadro no Brasil?Acho que a arte deve denunciar certos abusos. Mas o que reduziria assassinatos no Brasil seriam as mudancas nas leis. As leis no Brasil sao falhas, quem tem dinheiro e poder sempre esta acima da lei. Devemos mudar a constituição. A constituição protege homofóbicos como Bolsonaro. E ele é um dos responsáveis pela morte dessas pessoas e o culpado pelo crescimento de grupos homofóbicos no país com isso gerando violência e mais assassinatos. Necessitamos urgentemente de uma revolta popular contra racistas e homofóbicos.
De onde veio a inspiração para “homenagear” Bolsonaro?
Nunca tinha feito um retratro de um débil metal antes. Bolsonaro foi o meu primeiro.
Como tem sido a reação do público em relação à obra? Quem apoia o Bolsonaro odeia a escultura. Algumas pessoas não entendem a obra, mas a escultura aborda ainda um protesto contra as campanhas homofóbicas como a da Igreja Batista americana "God hates Fags" (Deus odeia os Veados). Eu troco a palavra "odeia" e coloco a palavra “ama”. A cena tem ainda um glory hole, sexo oral e pegação que é típico no mundo gay. A escultura também tem a inscrição “A realidade é que às vezes fazemos sexo sem camisinha” que é um alerta sobre o HIV e ao sexo sem proteção. Muitas pessoas criticam a escultura por falta de conhecimento sobre questões importantes relacionadas à homofobia e ao mundo gay. Quem não tem conhecimento sobre esses assuntos só consegue ver uma cena desnecessária de sexo
Você sabe como o Bolsonaro reagiu? Ele entrou em contato com você? Houve alguma manifestação de apoiadores do deputado?
A opinião do Bolsonaro é a que menos me importa. Tive várias manifestações de apoiadores do deputado dizendo que vão me matar, que vão me dar pauladas, que vão me processar, que eu deveria esta morto, que eu vou ser o número 251,etc... Nada que eu não esperasse por parte de gente que tem a mesma mentalidade doentia que a do deputado. O Sr. Bolsonaro gerou essa onda de ódio no Brasil contra gays e negros. Se eu for assassinado, ele será o culpado.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O amor que não ousa dizer seu nome


Bateu-lhe à porta, ao acaso, um dia.
E ele, inebriado pela cotovia
(que paira à janela, mas depois some...),
Sentiu crescer, súbito, na alma, u'a fome
De algo que, até então, desconhecia.
Desejo... estranheza... culpa... agonia...!
Desce aos umbrais, na angústia que o consome!
... porém, depois das lágrimas enxutas,
Chamou a cotovia, deu-lhe frutas,
E sorveram, um no outro, a própria essência.
E ambos, nessa atração de semelhantes,
Num cingir de músculos, os amantes
Ergueram-se aos portais da transcendência.


Oscar Wilde, 1876.

Em Maio de 1895, após três julgamentos, foi condenado a dois anos de prisão, com trabalhos forçados, por "cometer atos imorais com diversos rapazes". Wilde escreveu uma denúncia contra um jovem chamado Bosie, publicada no livro De Profundis, acusando-o de tê-lo arruinado. Bosie era o apelido de Lorde Alfred Douglas, um dos homens de que se suspeitava que Wilde fosse amante. Foi o pai de Bosie, o Marquês de Queensberry, que levou Oscar Wilde ao tribunal. No terrível período da prisão, Wilde redigiu uma longa carta a Douglas. A imaginação como fruto do amor é uma das armas que Wilde utiliza para conseguir sobreviver nas condições terríveis da prisão. Apesar das críticas severas a Douglas, ele ainda alimenta o amor dentro de si como estratégia de sobrevivência. A imaginação, a beleza e a arte estão presentes na obra de Wilde.


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Naked



Pinturas de Philip Gladstone, mais aqui: http://www.philipgladstone.com/works.html

VAE VICTIS

Sensação de cão sem plumas
a máscara
a farsa - o medo
isto tudo nasceu comigo.
A primeira mentira dita,
a gente se documenta,
se habilita
se exercita - e acaba se acostumando.
A enfermeira é porta-voz.
Oficiosa, a víbora morde, sopra,
e cospe um verbete: Homem!
Meu pai acredita,
minha mãe se deleita
o povo festeja. Bandeiras, discursos,
charutos - bandas de música.
Beberam o mijo do menino
magricela - sem lhe perguntar
sem lhe auscultar - a sina.
Toda festa tem seu preço.

Etiquetado, recebo no berço
a humanidade
me olhando e rindo
um riso que eu não entendo
e que não me larga.

Só não ri o anjo. que me protege
assexuado, a-ético, aéreo,
sobrevoando o meu ser
e dizendo:
- Vai, Paulo, ser gay na vida!
No espaço geográfico do discurso há-sumo.
Nihil obstat.



- Poema de Paulo Augusto

ESTATUTO

Ser bicha é ser enquadrado 
no inciso C 
do parágrafo terceiro 
do artigo 24 
da lei de segurança inter 
nacional. 

É ter medo à flor da pele,
é ter a língua ferida,
a boca rubra,
o beijo fácil,
o amor saindo pelos poros.

Ser bicha é um estado de espírito,
de choque, de sítio,
de graça.

Como o artista pinta seu quadro,
como a luz que filtra
a janela do quarto
a lua bojuda no céu.

Ser bicha: ser inspecionado,
é ter revirado o passado
e investigado o medo –
subindo o cheiro saudoso
dos primeiros tempos.

É a polícia, acesa e trêmula
no encalço do baitola
amedrontado.

Ser bicha é ser metade gente,
a outra metade - o povo,
gargalha garganta a dentro
ri e galhofeiro.

É Ter parte com o demônio,
aprendiz de feiticeiro.
É estar entre, no meio, ser meta-de
Outros homens.


- Poema de Paulo Augusto

A persistência do desejo - uma síntese da literatura gay brasileira.


Seria redundante chamar tal poesia de experimental, uma vez que, toda poesia autêntica, ultrapassando o limite do dizível e do nominável, não pode ser senão experimental. O certo é que o relançamento do livro de poesias "Falo", após mais de duas décadas, permite avaliar, com mais nitidez do que na repressora época do seu lançamento, o essencial do homoerotismo criador do seu autor, Paulo Augusto. É também uma boa ocasião para abordar a literatura gay brasileira, embora não a veja enquanto gênero literário específico. Uma nação, a nossa, onde a obra de conteúdo homossexual freqüentemente tem minizado o aspecto literário para se concentrar em julgamento moral. Os contemporâneos deste livro transgressor, aqueles que chegaram a lê-lo nos duros anos 70, puderam observar, talvez com precisão, o que havia de pessoal e irreverente no estilo do poeta potiguar. O recuo no tempo e a superação da fase que o tema gay não vendia e era lido as escondidas, deixam-nos ver agora, em saliênc ia, no complexo contexto desta poética, o tecido próprio da arte dita marginal. A obra é do tempo do Lampião da Esquina, um jornal porta-voz dos gays brasileiros que se publicou entre 1978 e 1981, lançando nomes como Aguinaldo Silva e João Silvério Trevisan, este autor do fundamental "Devassos no Paraíso"(1986), a história da homossexualidade brasileira dos tempos coloniais até ao fim do milênio. Na introdução deste estudo fecundo que já nasceu clássico, Trevisan fala do homossexual como de alguém que instaura uma dúvida, "algo que afirma uma incerteza, que abre espaço para a diferença e que se constitui em signo de contradição frente aos padrões da normalidade". Paulo Augusto, nada preocupado com dar uma visão politicamente correta das evidências, provoca a partir do próprio título, "Falo", um ambíguo jogo entre a palavra dita com autoridade e o órgão sexual masculino. Ele questiona tanto o comportamento dos chamados "frescos" como o enrustido, num estimulante embate entre o desejo e a denúncia, construindo uma poética de forte vibração erótica, nunc a pornográfica. A experiência do poeta não é de hoje. Apenas agora ela adquiriu uma total plenitude de sentido e de maneira. O Brasil iniciou-se no gênero com "Bom-Crioulo" (1895), do cearense Adolfo Caminha, considerado o primeiro romance, em todo o mundo, a abordar o amor homossexual de forma direta. Narra o envolvimento amoroso entre dois marinheiros, um deles negro, inclusive com descrições detalhadas de atos sexuais. O autor utilizou vasta soma de informação obtida a partir de depoimentos prestados em audiências jurídicas relacionadas com casos de sodomia na Marinha e no Exército. A publicação do livro suscitou escândalo e controvérsia. Em 1937, a Marinha solicitou e obteve do presidente Getúlio Vargas o embargo de uma nova reedição. Só noventa anos depois da 1ª edição o livro voltou às livrarias e às bibliotecas públicas e escolares. Em 1914, a revista Rio Nu publicou "O Menino de Gouveia", de autor anônimo, conto ilustrado com a imagem nítida de dois homens praticando sexo anal. Mais de 60 anos antes, o poeta romântico Álvares de Azevedo, que morreu antes de completar 21 anos, deixou uma apaixonada carta de despedida a um amante: "Luís, há aí não sei quê no meu coração que me diz que talvez tudo esteja findo entre nós [...] há em algumas de minhas cartas a ti uma história inteira de dois anos, uma lenda, dolorosa sim mas verdadeira, como uma autópsia de sofrimento. Luís, é uma sina minha que eu amasse muito e que ninguém me amasse. Assim como eu te amo, ama-me". Mário de Andrade, que tinha problemas com a sua opção sexual e era amigo íntimo de Luís da Câmara Cascudo e Manuel Bandeira, escreveu contos falando de amores entre rapazes. Numa das suas crônicas, o autor da rapsódia "Macunaíma - Herói sem Nenhum Caráter"(1926), diz: "É por causa do meu engraxate que ando agora em plena desolação. Meu engraxa te me deixou". Mário foi muitas vezes ridicularizado por Oswald de Andrade, que o chamava "o nosso Miss São Paulo traduzido em masculino". O sociólogo Gilberto Freyre, como chegou a declarar em entrevistas, também gostava da fruta. Ao publicar "Casa-Grande & Senzala"(1933) foi acusado nos meios tradicionalistas como pernicioso e pornográfico. Assim como o poeta oficial Olavo Bilac, que compôs o "Hino Nacional", e o inventivo cronista João do Rio, que aos 18 anos publicou dois contos homoeróticos: "Impotência" e "Ódio". O solitário baiano Sósigenes Costa, o criador de "Iararana", publicado postumamente em 1979, teve a sua homossexualidade abafada durante décadas e quando há dois anos toda a sua obra foi relançada graças ao aval de José Paulo Paes, não encontrei nenhum estudioso com valentia de comentar sobre a sua sexualidade, o máximo dito foi que "não é importante para a compreensão de sua poética". O que não é verdade. Nos anos seguintes, destacaram-se outros escritores gays: Aníbal Machado, autor de "João Ternura"(1965); o injustamente esquecido Otávio de Faria e o genial mineiro Lúcio Cardoso, um dos maiores escritores da nossa literatura, autor de "Crônica da Casa Assassinada"(1959), além de poeta, cineasta e dramaturgo.O seu "Diário Completo"(1949-62) tem passagens densas e reveladoras: "A profundeza da sensualidade é espantosa, é como um caminho sem fim. Mas caminho perfeitamente igual nas suas linhas, nas suas curvas, nos seus processos, como um vasto corredor que atravessássemos, mostrando a mesma paisagem sem surpresa". A poesia homoerótica de Mário Faustino, um parceiro de juventude de Paulo Francis, só raramente é lembrada. Morreu em 1962, num desastre de avião, com apenas 32 anos. Não podemos esquecer Paulo Hecker Filho, autor de "Internato"(1951). Nos anos 60 e 70 falou-se muito da escritora Cassandra Rios, que vendia em média trezentos mil exemplares anuais, e que por descrever cenas amorosas entre lésbicas foi muitas vezes intimada a comparecer perante juízes e delegados, acusada de atentado à moral e aos bons costumes. O escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, nas nossas conversas poucos anos antes de sua morte, falava do tabu em torno da secreta vida amorosa da acadêmica Nélida Piñon, do romance na Itália entre Diogo Mainardi (autor do hediondo "Polígono das Secas", 1995) e o norte-americano Gore Vidal, além do amor irrealizado da escritora Olga Borelli por Clarice Lispector. Ela cuidou da autora de "Perto do Coração Selvagem"(1944), quando doente e até a sua morte, com paciência e d edicação. A homossexualidade do mineiro Pedro Nava só foi revelada após o seu desaparecimento. Uma história sensível e importante foi o romance entre a poeta norte-americana Elizabeth Bishop e a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares, registrado em cartas e no livro "Flores Raras e Banalíssimas"(1995), de Carmen L. Oliveira. Elas viveram juntas por dez anos na casa de Samambaia, perto de Petrópolis. O álcool destruiria essa relação, mas Bishop só voltou aos Estados Unidos depois do suicídio de Lota. No romance "O Grupo / The Group"(1963), de Mary McCarthy, a baronesa lésbica é inspirada em Lota. Vange Leonel, Valdelice Pinheiro e Leila Miccolis são nomes importantes na literatura lésbica brasileira. Caio Fernando Abreu, o autor de "Morangos Mofados"(1981) e "Onde Andará Dulce Veiga?"(1990), surgiu nos anos 70 e nunca escondeu sua homossexualidade. As cartas que escreveu para a poeta Hilda Hilst, autora da história gay "Rútilo Nada"(1993), são comoventes, assim como alguns contos, destacando-se "Aqueles Dois". Nesta mesma década faz-se notar a obra ficcional de Aguinaldo Silva e Darcy Penteado (autor de "A Meta", 1976, coletânea de contos autobiográficos). Aguinaldo Silva publica em 1975, "Primeira Carta aos Andróginos", um relato cru dos engates num cinema carioca. Outros nomes importantes para a compreensão literária gay nacional são os de João Gilberto Noll, Silviano Santiago, Herbert Daniel, Bernardo Carvalho, Luis Capucho, Jean-Claude Bernardet e os poetas Roberto Piva (se classifica como "eu sou o jet-set do amor maldito"), Glauco Mattoso, Valdo Mota, Ítalo Moriconi, Antonio Cícero e Nestor Perlongher, argentino que vivia em São Paulo. Silviano Santiago, também p oeta e ensaísta, não passou despercebido com "Stella Manhattan"(1985) e enfrentou vergonha e culpa no seu romance "Uma História de Família"(1993). Herbert Daniel é autor de um sincero livro autobiográfico, "Passagem para o Próximo Sonho"(1982), obra que narra sua participação na guerrilha brasileira e seus problemas enquanto homossexual que, após fugir do Brasil durante a ditadura de 1964, acabou se empregando como porteiro numa sauna gay de Paris. Jean-Claude Bernardet, em parceria com Teixeira Coelho, publicou em 1993 a novela epistolar "Os Histéricos". Bernardo Carvalho é autor do excelente volumes de contos "Aberração"(1993). Capucho escreveu o erótico-pornô "Cinema Orly"(1999) e o capixaba Valdo Mota é um adepto da sodomia mística literária. Na dramaturgia, Nelson Rodrigues deu a senha do "ladrão boliviano" em "Toda a Nudez Será Castigada"(1965); Chico Buarque de Holanda imortalizou o travesti Geni em "A Ópera do Malandro"(1978); e Plínio Marcos comoveu platéias com o homossexual marginal Veludo de "Navalha na Carne"(1967). Nenhum deles é gay, mas trataram o tema com sensibilidade e verdade. Mas talvez a mais importante obra tupiniquim de celebração gay seja "Grande Sertão: Veredas"(1956), onde Guimarães Rosa desenha a ambigüidade. Nesse épico da linguagem, o jagunço Riobaldo ama secretamente seu jovem parceiro Diadorim, sem saber que ele não passa de uma mulher masculinizada. O escritor italiano Claudio Magris disse tratar-se "de uma das mais importantes histórias gays já escritas". No Rio Grande do Norte, além de Paulo Augusto, destacam-se vários escritores e poetas de homossexualidade latente. Dedicando "Falo" ao lendário marginal João Francisco dos Santos, que passou à história como Madame Satã, Paulo Augusto toca nas idéias e comportamentos libertários da contracultura dos 70, caracterizando uma identidade que reivindica o lugar da diferença. Obra que assume uma importância poética, para além da estética, contribuindo que o indivíduo se liberte das amarras sociais e morais. O autor traz para dentro de seu texto a narrativa de suas experiências, de suas emoções, de uma sensualidade pulsante que motivou o interesse poético. Ele demonstra que poeta é justamente aquele que, longe de buscar amparo em reconhecimentos, deixa acontecer, ou melhor, fomenta em si mesmo, no mundo e nas palavras, o desamparo do desconhecido, do espantoso, do valente

de Antonio Júnior