"Somos todos queers em potencial: para além das rotulações sexuais, a totalidade das componentes de nossa identidade depende de semelhantes táticas, passíveis de ser jogadas no tabuleiro das culturas. Assim, a vida cultural é feita de tensões entre a reificação pura e simples pressuposta pela inclusão de si mesmo em uma categoria read-made (esteta amante de ópera, adolescente gótico, leitor de romances históricos...) e a manifestação das identidades, que implica uma luta contra qualquer aderência: cabe afirmar que o consumo de signos culturais não acarreta nenhuma conotação identitária duradoura. Por definição, não se é aquilo que se usa. Em 1977, os punks ingleses justapunham em suas jaquetas de couro bótons nazistas e comunistas. Aquelas suásticas e foices exibidas juntas significavam, acima de tudo, o ódio a toda lógica de rotulação ideológica: contra a evidência demonstrativa os punks optaram pelo paradoxo flutuante. Estavam ali, pregados, signos esvaziados pelo choque de sua copresença. O pertencimento a uma comunidade identitária pertence a essa lógica do bóton. Revestindo signos de coerência atestada por uma tradição, roupagens intelectuais e estéticas que supostamente compõem um "corpo natural", o nacionalismo contemporâneo revela ser uma drag queen que desconhece a si mesma." p.36
BOURRIAUD, Nicolas. Radicante - por uma estética da globalização. Martins Fontes: São
Paulo, 2011.
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